
Em “Casas em Auvers” (Maisons à Auvers), pintada por Vincent van Gogh em maio/junho de 1890, a composição nos apresenta um grupo de habitações rurais com seus telhados de colmo e telhas azuis, parcialmente encobertas por vegetação e contornadas por um caminho pavimentado em primeiro plano. O céu, carregado de pinceladas curvas em tons cinza-esverdeados, transmite uma sensação constante de turbulência atmosférica.
A historiografia da arte analisa esta obra do período final de Van Gogh destacando o contraste entre a busca por estabilidade estrutural e a frenesia gráfica. Diferente dos vastos campos abertos de sua fase final, aqui as casas funcionam como blocos tectônicos sólidos que tentam ancorar a tela. No entanto, o contorno escuro e vibrante das paredes, as pinceladas onduladas que fazem a vegetação e o céu parecerem em constante movimento e a perspectiva ligeiramente inclinada revelam como o mundo exterior era percebido por Vincent: uma realidade marcada pela instabilidade e pelo excesso de estímulos emocionais.
O Contexto de Maio/Junho de 1890: A Ilusão da Calmaria em Auvers-sur-Oise
Pintada logo após sua chegada a Auvers-sur-Oise, em maio de 1890, a obra nasce em um período de transição crítica. Após deixar o asilo de Saint-Rémy, Van Gogh buscou em Auvers a proximidade com seu irmão Theo, com o meio artístico parisiense e com os cuidados do Dr. Paul Gachet, um médico especializado em melancolia que também era patrono das artes.
Nos primeiros dias e semanas em Auvers, Vincent sentiu um sopro de esperança. Ele ficou fascinado pela arquitetura rústica e pitoresca das antigas casas da região, escrevendo a Theo que encontrava nelas “uma beleza severa, mas profundamente humana”. Contudo, essa aparente serenidade coexistia com o medo constante de novas crises psiquiátricas, a sensação de ser um fardo financeiro para a família do irmão e a falta de uma estrutura psíquica verdadeiramente segura. A tentativa de desenhar “casas sólidas” era, na verdade, sua tentativa de desenhar uma segurança interna que começava a ruir.
Costurando a Análise com a Terapia Cognitivo-Comportamental: O Sistema de Significado e a Reestruturação de “Abrigos” Internos
A tensão entre a estrutura rígida das casas e o céu caótico em Maisons à Auvers conecta-se perfeitamente com os modelos da TCC.
- O “Abrigo” como Metáfora das Crenças de Segurança: Na TCC, a arquitetura interna do indivíduo é composta por crenças. A casa na pintura simboliza a busca por um “espaço seguro” (a necessidade de contenção e previsibilidade). Quando passamos por períodos de vulnerabilidade ou ansiedade aguda, tentamos nos apegar a rotinas ou estruturas (as paredes das casas), mesmo quando o ambiente interno ou externo (o céu turbulento) parece caótico.
- A Hipervigilância e o Viés de Ameaça: As pinceladas agitadas e a deformação sutil das linhas retas ilustram como o cérebro sob estresse crônico processa o ambiente. Sob o efeito da ansiedade, a mente opera com um viés atencional de ameaça: até mesmo um cenário doméstico pacífico é lido com uma camada de urgência e instabilidade. A TCC atua exatamente no desmonte desse viés, ajudando o paciente a diferenciar o perigo real do perigo percebido.
- Flexibilização dos Modelos Mentais: Tentar manter o controle absoluto diante de um “céu tempestuoso” gera rigidez cognitiva e sofrimento. A TCC ensina a desenvolver flexibilidade: em vez de exigir que a realidade seja perfeitamente estática, fortalecemos a capacidade da pessoa de se autorregular e se sentir segura mesmo quando o cenário ao redor está em movimento.
Muitas vezes, sentimentos de ansiedade e instabilidade nos fazem perceber o mundo como um lugar incerto e ameaçador, tornando difícil encontrar um ponto de apoio e calmaria na rotina.
Como está a sua sensação de segurança e estrutura no momento atual?
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