
Em “O que a água me deu” (Lo que el agua me dio), tela pintada a óleo em 1938, Frida Kahlo nos convida a compartilhar da sua perspectiva mais íntima e fragmentada. A artista adota uma composição sem o seu rosto tradicional: o espectador ocupa a posição da própria Frida, olhando para baixo dentro de uma banheira cheia de água. Da superfície líquida, entre o reflexo dos pés feridos e deformados, emergem microcenas, figuras minúsculas, vulcões em erupção, seus pais, edifícios, plantas e símbolos de perda e desejo.
A historiografia e a crítica de arte frequentemente associam esta obra ao Surrealismo, vertente que André Breton elogiou entusiasticamente ao ver a pintura em Paris, embora a própria Frida tenha afirmado que não pintava sonhos, mas a sua própria realidade. A água funciona como uma lente telescópica do tempo e da memória: um espaço de recolhimento onde as dores corporais, os traumas da infância, a sexualidade e as crises matrimoniais fluem sem uma cronologia linear, formando uma colagem psíquica de sua biografia.
Frida Kahlo em 1938: O Reconhecimento Internacional e a Crise Matrimonial
O ano de 1938 foi marcado por intensa produção artística e forte turbulência emocional na vida de Frida Kahlo. Foi o ano de sua primeira exposição individual na Julien Levy Gallery, em Nova York, que a projetou para a cena artística internacional de forma autônoma em relação à sombra de Diego Rivera.
Entretanto, por trás da ascensão profissional, o casamento com Rivera atravessava um momento crítico de desgaste e infidelidade recíproca, caminhando para o divórcio que ocorreria no ano seguinte. Além disso, as dores crônicas decorrentes de seu grave acidente e das subsequentes intervenções cirúrgicas continuavam a limitá-la fisicamente. O momento na banheira, retratado na tela, simboliza as poucas horas de pausa e alívio físico que a artista encontrava no dia a dia — momentos em que, ao relaxar o corpo, a mente abria espaço para que todas as lembranças e mágoas acumuladas viessem à tona.
Costurando a Análise com a Psicologia Cognitivo-Comportamental: A Ruminação Cognitiva e a Desfusão de Pensamentos
A profusão de cenas e símbolos flutuando sobre a água em Lo que el agua me dio conecta-se diretamente com o conceito de Ruminação Cognitiva e com as estratégias da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), abordagem de terceira onda da TCC:
- O Fluxo da Ruminação e a Carga Afetiva: Nos momentos de quietude, quando o ambiente externo se cala, a mente humana tende a ligar a “rede em modo padrão” (Default Mode Network), trazendo à tona memórias não processadas, mágoas passadas e preocupações futuras. Na TCC, a ruminação é compreendida como esse processo reflexivo contínuo e involuntário no qual a atenção fica presa ao sofrimento, sem que haja uma resolução prática imediata.
- Fusão Cognitiva vs. Observação (A ACT): Ao olhar para os próprios pensamentos como eventos que “flutuam na água”, a tela ilustra a diferença entre estar fundido à dor ou atuar como um observador da experiência. A ACT ensina a desfusão cognitiva: a capacidade de notar os pensamentos, memórias e sentimentos dolorosos como construções mentais temporárias, sem se deixar arrastar por eles como se fossem verdades absolutas ou ameaças do presente.
- Aceitação Radical da Complexidade Interior: Tentar reprimir sentimentos incômodos muitas vezes os torna mais intensos. A obra de Frida exemplifica a aceitação radical da própria história, integrando o belo, o trágico, a dor física e o amor em uma mesma superfície, permitindo que a experiência humana exista em toda a sua complexidade sem a necessidade de controle absoluto.
Muitas vezes, quando nos desaceleramos, somos invadidos por uma enxurrada de pensamentos, memórias e preocupações que tornam o descanso difícil e geram sentimentos de ansiedade ou sobrecarga.
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