
Em “Jovem Fazendo Crochê” (Jeune Fille Faisant du Crochet), obra criada em 1892, Suzanne Valadon registra uma das cenas mais intimistas e estruturadas de seu início de carreira. A pintura retrata uma jovem garota absorta no ato minucioso de entrelaçar fios. Com uma postura inclinada e contida, a figura prende o olhar na ponta das agulhas, alheia ao ambiente ao seu redor. A técnica de Valadon já revela traços marcantes de sua identidade visual: linhas de contorno firmes e expressivas que delimitam o corpo e a ação, combinadas a uma paleta suave, mas sóbria, que confere peso e densidade ao momento.
A crítica de arte e a historiografia analisam esta tela como um estudo sobre a absorção atencional e a disciplina do fazer. Ao contrário das retratações idílicas e decorativas da infância ou do trabalho feminino comuns no final do século XIX, Valadon recusa o sentimentalismo. Ela imprime gravidade, seriedade e autonomia à jovem. O crochê não é apresentado como um mero passatempo fútil, mas como uma tarefa de precisão motora e mental, onde a repetição do gesto constrói um espaço de ordem, ritmo e quietude interior.
Suzanne Valadon em 1892: A Transição de Modelo a Artista e a Busca por Disciplina
O ano de 1892 marca um momento crucial na trajetória de Suzanne Valadon em Montmartre. Após anos atuando como modelo para mestres como Pierre-Auguste Renoir e Henri de Toulouse-Lautrec, Valadon começou a transitar definitivamente para o outro lado do cavalete, afirmando-se como desenhista e pintora autodidata de extraordinário talento.
Nesse período, Edgar Degas, um de seus maiores incentivadores, ficou impressionado com a firmeza de suas linhas e a precisão do seu traço. Para Valadon, que vivia um período de instabilidade financeira, maternidade jovem (seu filho Maurice Utrillo era pequeno) e constantes transformações pessoais, o ato de desenhar e pintar com obsessiva rigorosidade técnica funcionava como um eixo de estabilização. Retratar a jovem imersa no crochê em 1892 reflete essa busca da própria artista por estrutura, controle técnico e foco no desenvolvimento do seu domínio artístico.
Costurando a Análise com a Psicologia Cognitivo-Comportamental: Regulação Emocional e Treino Atencional
O estado de imersão da jovem no trabalho manual conecta-se diretamente com conceitos da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e das abordagens baseadas em Regulação Emocional e Treino Atencional:
- Tarefas Repetitivas e Ancoragem Atencional: Na TCC, atividades manuais estruturadas que exigem ritmo e repetição (como o crochê, o tricô ou a escrita) atuam como importantes âncoras atencionais. Quando o cérebro se engaja em uma tarefa de sequenciamento motor preciso, há um redirecionamento da atenção do ambiente interno (onde habitam pensamentos ansiosos e preocupações) para o estímulo prático do “aqui e agora”, promovendo acalmia do sistema nervoso.
- A Regulação Emocional por Meio do Foco Direcionado: O treino atencional é uma habilidade central na TCC para o manejo da ansiedade. A cena capturada por Valadon exemplifica a capacidade de entrar em um estado de absorção, no qual o indivíduo reduz o impacto do estresse externo ao canalizar sua energia cognitiva para uma meta microestruturada (o próximo ponto do crochê).
- Construção de Autonomia e Senso de Domínio: A repetição metódica de uma habilidade gera uma sensação progressiva de maestria e eficácia (Mastery and Pleasure). Ver um trabalho ser construído ponto a ponto fortalece a percepção de controle e capacidade pessoal, fundamentais para contrapor crenças de impotência ou desorganização mental.
Muitas vezes, com o excesso de tarefas, ruídos e preocupações do cotidiano, sentimos dificuldade de focar a mente, organizar as emoções e encontrar momentos de verdadeira quietude e concentração.
Quais atividades do seu dia a dia têm ajudado você a ancorar a mente e encontrar foco no presente?
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